08 dezembro 2010

alegria rara


as cores se movem lentas

há trânsito sol e multidão

não sei de onde vem o sossego

que certas horas me acerta em cheio

e paro e deixo o tempo correr solto

tomo um café cerimoniosamente

folheio um livro displicente

murmuro mentalmente uma canção

e rabisco em lenços de papel

cabeças de mulheres que nunca vi

pedaços de corpos e árvores

e versos que se perderam de poemas

que nunca escrevi... nem escreverei

toda vida, todo mundo... tudo

se concentra nesse instante

e um sentimento novo se anuncia

nas dobras dos velhos sentimentos

e me acontece uma alegria rara

que gostaria de dividir contigo.

o elogio da aparência


aparências...toda realidade. você pode querer o oculto, o mistério, a essência... e sei lá mais quê... aparências nos fazem. a rua que vejo sem olhar, o tempo que passa, sem passar... o céu sobre a cidade. as nuvens filtrando raios de sol... a mulher com roupa de ginástica caminhando... o velho mendigo fumando na calçada. as crianças batendo bola... aparência não é superfície simplesmente. não é só o que a gente pode ver... a parência é o mundo com conteúdo, com texturas, formas, sons, volumes, odores, sentidos, símbolos, signos... vivências. a aparência contitui a materialidade incontornável da vivência. engana? ilude? aliena? esconde a "realidade"? mas, quem suportaria viver sem ilusões? aparência não é transparência, nem opacidade... é ambivalência, ambiguidade, multiplicidade, pluralidade... a aparência é o modo como se revela a pluraidade e heterogeneidade do mundo. a aparência não aliena... o trabalho nos aliena. a diversão comprada nos aliena. o prazer e o conforto adquiridos a prazos e com juros nos alienam. a comunicação massiva e espetacular nos aliena. a aparência constitui o que nos aparece e acontece em dado tempo e lugar. nós somos aparência. nós fazemos aparecer. a aprência não é uma paisagem neutra e subjetiva. é uma construção cotidiana e coletiva, social, cultural e histórica. a aparência não precisa de explicação. a aparência não precisa de interpretações. a aparência não depende da razão. a aparência é uma condição humana. sem aparência o mundo cairia numa total e absurda ruína, afundaria num caos absoluto, no qual ninguém suportaria viver... o mundo humano é o mundo das aparências às quais não podemos opor nenhuma essência. a essência é mentira, engodo, farsa dos que querem se convencer que existe uma verdade para além da vida concreta, de terra, do corpo... o corpo aparece, por isso é corpo. a vida aparece, por isso é vida.

04 dezembro 2010

hoje acordar

hoje não...hoje não será um dia como ontem...não mesmo. hoje eu vou viver tudo que vier, tudo que der pra viver... você vai ver! hoje eu aprendo a sorri do que passa, do que se perde, do que se extravia no mundo, sem encontrar nele seu lugar...hoje eu não vou me extraviar, deixar que o tempo dos outros comande meu tempo. quero viver o melhor da alegria, a pura graça... você não entende, mas eu estou seguindo em frente. você não sabe amar o que há em mim de mais secreto, mas eu não vou mais sofrer com isso. talvez eu nunca tenha sofrido de verdade. hoje eu aprendi a ver o que eu sempre vi de um modo que você não pode imaginar, mas não tenho palavras pra dizer... fiz um desenho, mas foi em vão... figurar em traços o que vi também não foi possível. a vida respira em mim num novo rítmo. eu quero te contar como pensei em você hoje... pensei em você sem passado, sem presente nem futuro... você era só imagem. disse um filósofo que no amor tudo é imagem, e que a imagem é a realidade... mas eu não tenho nada a ver com amor...não fui corrompido pela "vontade de amor", esta banal vontade de poder... mas a realidade é mesmo imagem. e você é uma imagem que me toca... um pouco aqui, onde as vibras da vida são intensas... hoje senti o seu toque ao acordar... e tantas vezes tenho acordado hoje e nem dormi... você... não é ninguém. você nem existe... e já vive tanto em mim!

03 dezembro 2010

pela manhã

pela manhã eu sentei para escrever um poema
a cidade já era toda ruído e movimento lá fora
e uma luz branca coava a vidraça da janela

o poema brincava de esconde-esconde comigo
brincava com as nuvens e as crianças na rua
e com minha intenção querendo não-querendo acordar...

pela manhã bem cedo levantei para escrever
o poema que a cidade num rumor crescente
fazia vir da rua com a poeira e o ronco dos motores

sobre a mesa da cozinha o papel mudo esperava
o contato da mão e da caneta e esfreguei os olhos
para acordar direito - quase o poema escapuliu

mas eu o segurei pelo rabo e o meti na agenda!

acordar

se pudesse acordar
levaria um sonho comigo
não sei se o mais bonito
não sei onde escondido...
mas, se pudesse acordar
ia te dizer tudo que aprendi sonhando
ia te contar da minha vida de sonhos
e fazer você entender que te amo.

chamado à revolta


o que proponho é o desregramento, nem mais, nem menos... defendo o exagero. contra o desenvolvimento oponho o envolvimento como estratégia, como política, como projeto, como filosofia profunda. defendo a rebelião, a revolta, a subversão, a guerra... sim, a guerra não como dispositivo de poder, de dominação e hegemonia, mas a guerra como resistência, como libertação, como contra-hegemonia. para construir "um mundo onde cabe outros mundos" é preciso destruir esse mundo da mercadoria, do capital, do consumo, dos estados-nações, das grandes mídias, dos bancos, da democracia eleitoral, da política partidária, do conhecimento acadêmico parcelado e parcial... vamos à guerra. convoco os "condenados da terra" ao combate, a luta sem trégua e sem piedade contra os senhores e as senhoras do progresso, os profetas do desenvolvimento, este evangelho do capital... o que proponho exige destruição da ordem estabelecida, da sentido de segurança, da comodidade, do conformismo, da apatia, da acomodação, da conformidade... sou a favor dos desconformes, dos que tem fome... estou do lado não dos fracos e dos oprimidos, mais dos lentos, dos duros, dos crueis, dos que cultivam uma loucura política ativa e não reativa... gosto de ouvir os que falam de "revolução", mesmo que equivocadamente, os que tornam as críticas vigorosas e belas, atrozes e impiedosamente ácidas, cáusticas, indefensáveis, moralmente inaceitáveis... onde estão os críticos? os mais obsecados, os mais virulentos, os mais intoleráveis!!! onde estão os críticos que não se ouve seus bramidos bárbaros? onde estão os poetas malditos? para onde foram os homens e as mulheres que dão a vida pra criar novas possibilidades, mais elevadas, de viver? onde estão aqueles que tem a coragem de dar seu sangue para que frutique, para que nasça um futuro esplendoroso e de dignificação da vida em geral? assistimos abestalhados a desdtruição contínua e irrefreável das condições de vida humana mais dignas para todos os povos, levado a cabo por um punhado de grandes empresas e estados capitalistas imperiais. e o que fazemos? teorias? e o que faremos? defendo um levante popular contra as forças do mercado e da globalização. defendo a multiplicação de revoltas, a desapropriação violenta dos meios de poder privadamente apropriados. defendo a derrubada das cercas e muros dos direitos de propriedade (inclusive tecnólogicos e científicos) que garantem os privilégios dos ricos muitos ricos, dos grandes capitalistas do mundo. derrubemos os grandes capitalistas através de combates em todas as escalas! combates de morte e vida! combates que não errefecerão enquantos não houverem sido quebradas todas as barreiras de socialização das riquezas, dos saberes e das tecnologias poduzidas. grandes capitalistas do mundo temei por que um fantasma ronda o mundo, muito mais poderosos que o antigo comunismo da era industrial/imperialista. é o fantasma das microrevoluções disseminadas, das guerras das classes subalternas; é o fantasma das insatisfações acumuladas... temei grandes capitalistas e dominadores das grandes máquinas estatais: o sistema totalitário que erigis e mantém contra todos vai ruir estrondosamente! nada podeis fazer! o mundo não os suporta mais! convoco a todos para uma batalha sem trégua e sem piedade contra os grandes capitais!!!

Os girassóis de Van Gogh


Hoje eu vi
Soldados cantando por estradas de sangue
Frescuras de manhãs em olhos de crianças
Mulheres mastigando as esperanças mortas

Hoje eu vi homens ao crepúsculo
Recebendo o amor no peito.
Hoje ue vi homens recebendo a guerra
Recebendo o pranto como balas no peito.

E, como a dor me abaixasse a cabeça,
Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh

(Poema de Manuel de Barros)

de pensar em ti


os velhos sinais do tempo
não há mais poesia
só os jornais
...ontem tudo era tempo aberto
e meu coração ordenara
temporais
e a novidade é que amanheceu
pela janela a luz anuncia
e meu corpo inteiro dói
muído de pensar em ti
de pensar em ti
fiquei uma barata tonta.

música um


queria começar a música
e quase não havia silêncio
completo
um novo começo se fez
nos meus nervos
uma eletricidade dispara
desejo
um lugar com flores
mais vivas e alegres
que as que pintei
em versos.

(Foto: Bar do Gato - Cametá-Pa)

somos outros


dormir meu descanso
acordar meu sono
era um começo
por isso estava tão estranho

tome chá
torrada com geléia, meu bem
hoje a gente se entende
amanhã se suporta
e quem sabe um dia
a vida aconteça

dirigir o destino
deslocar o engano
pela janela de vidro
o olhar segue os passos da chuva

traga o jantar
pizza com refrigerante
a gente é tantos e não sabe
quando somos outros
os outros nos econhecem
e nos sentimos mais longe de tudo.

(do livro inédito: LIVRO UM - Foto: Estátua de Pedro Texeira no porto em Cametá-Pa)

outra língua


o começo da festa
no coração das feras
estou a primavera
não misturo as pedras
- grite o amor
jamis foi assim tão perfeito
você quis cair nu deserto
você procurou o sono mais bonito
e eu estive aqui acordado
toda noite, sem saber
como escrever o verso doce
e às vezes perguntava qual a razão
e você falava em outra língua
em todos os canais da televisão.

um outro carnaval


você não vai querer ver o fim
quando as tropas de choque chegarem
você não vai aplaudir o cantar da metralhadoras

você não vai me dizer que entende
as formas de ocultar o pânico o medo
e as mordidas ferozes do grande dragão de fogo

você não vai mais dizer que a cidade respira melhor
após o cheiro de gás lacrimogênio e de polvora
não mais chegar ao teu sensível olfato

e haverá um outro carnaval no rio
um carnaval dos morros
um carnaval do povo.

01 dezembro 2010

imundice


contextualize
deixe tudo rodar e me peça
espaço e tempo se quiser...

as fardas estão manchadas
os tanques subiram os morros
violando terriórios restritos

cotidiano
as noticias da tv são ostensivas
violanção de toda realidade
- quem vai ganhar com isso?

você não quer saber
as fogueiras dos ônibus e carros
queimados continuam acendendo ira

contextualize
amor, essa miséria não acaba
pobre é o pensamento, rico
o espetáculo... armas nas mãos

é o bem contra o mal
e todo mal é o crime favelado
"agora sim teremos paz"

tudo é confusão e imundice
essa gente hipócrita quer nos convencer
- ah, amor, esqueci de compra pão!

como foi meu dia


bruta paisagem urbana. corpos que se movem tantos... corpos que são todos os outros. e as máquinas que rugem furiososas na pressa e agitação... coisa crua de tão real essa miragem das ruas. o deserto aqui é a miragem... as solidões que coexistem lado a lado... todos os dias. todos os dias é assim... sem poesia. a cidade carregada de imagens tantas. anúncios aos milhares. propagandas de um colorido violento, invasor... e você me pergunta como foi meu dia...