08 abril 2011

massacres


hoje acordei com choro
uma dor de morte espelhava-se pela cidade
em todos os canais de tv
estampado em todos os jornais
massacre de crianças numa escola em realengo
acordar assim nos desconcerta todo
os especialistas explicam explicam
as crianças estão mortas
as crianças foram mortas
as crianças mortas
ninguém explica
somos como os americanos agora?
somos mais globais por isso?
à perplexidade comum soma-se o nojo
causada pelo cobrimento sensassionalista midiática
- quem é o assassino: o jovem perturbado
que apertou o gatilho ou a sociedade que o criou?

07 abril 2011

Diário

...poderia ter sido... deve ter sido. o infinito é menor aqui. as pessoas que voam sabem como são os telhados... as ruas do alto. o gosto das nuvens na boca. poderia sim ter sido e você me veria limpo... sem sentenças obtusas. sem abusar das complicações indomáveis. fere. tenho as fala sem desamolada. tenho a língua dentro da pouca. muitas palavras... recebo minha voz como um tapa nos ouvidos. saca tua arma, também! vamos ver quem fica vivo! é preciso ter coragem... é preciso escolher riscos! é preciso ser gente ppra gritar um basta ou um foda-se. é preciso ser muita gente... e resistir com todo sangue. com sangue e dignidade... não me tire a dignidade. pelo que ainda vale a pena morrer?

08 dezembro 2010

alegria rara


as cores se movem lentas

há trânsito sol e multidão

não sei de onde vem o sossego

que certas horas me acerta em cheio

e paro e deixo o tempo correr solto

tomo um café cerimoniosamente

folheio um livro displicente

murmuro mentalmente uma canção

e rabisco em lenços de papel

cabeças de mulheres que nunca vi

pedaços de corpos e árvores

e versos que se perderam de poemas

que nunca escrevi... nem escreverei

toda vida, todo mundo... tudo

se concentra nesse instante

e um sentimento novo se anuncia

nas dobras dos velhos sentimentos

e me acontece uma alegria rara

que gostaria de dividir contigo.

o elogio da aparência


aparências...toda realidade. você pode querer o oculto, o mistério, a essência... e sei lá mais quê... aparências nos fazem. a rua que vejo sem olhar, o tempo que passa, sem passar... o céu sobre a cidade. as nuvens filtrando raios de sol... a mulher com roupa de ginástica caminhando... o velho mendigo fumando na calçada. as crianças batendo bola... aparência não é superfície simplesmente. não é só o que a gente pode ver... a parência é o mundo com conteúdo, com texturas, formas, sons, volumes, odores, sentidos, símbolos, signos... vivências. a aparência contitui a materialidade incontornável da vivência. engana? ilude? aliena? esconde a "realidade"? mas, quem suportaria viver sem ilusões? aparência não é transparência, nem opacidade... é ambivalência, ambiguidade, multiplicidade, pluralidade... a aparência é o modo como se revela a pluraidade e heterogeneidade do mundo. a aparência não aliena... o trabalho nos aliena. a diversão comprada nos aliena. o prazer e o conforto adquiridos a prazos e com juros nos alienam. a comunicação massiva e espetacular nos aliena. a aparência constitui o que nos aparece e acontece em dado tempo e lugar. nós somos aparência. nós fazemos aparecer. a aprência não é uma paisagem neutra e subjetiva. é uma construção cotidiana e coletiva, social, cultural e histórica. a aparência não precisa de explicação. a aparência não precisa de interpretações. a aparência não depende da razão. a aparência é uma condição humana. sem aparência o mundo cairia numa total e absurda ruína, afundaria num caos absoluto, no qual ninguém suportaria viver... o mundo humano é o mundo das aparências às quais não podemos opor nenhuma essência. a essência é mentira, engodo, farsa dos que querem se convencer que existe uma verdade para além da vida concreta, de terra, do corpo... o corpo aparece, por isso é corpo. a vida aparece, por isso é vida.